Criolo, Dino & Amaro
- Cynthia Martins

- 27 de mai.
- 4 min de leitura

Me preparando para entrevistar Criolo, Dino e Amaro, observava cada partícula que envolvia a sala do BOA música, casa que recebeu audição e coletiva de imprensa sobre o lançamento do vinil 'Criolo, Dino & Amaro'.
E não pude deixar de observar, de sentir o amor que uniu além da música aqueles três homens negros.
Sentados no sofá do estúdio que ia receber nossa conversa, Criolo e Dino ficaram de mãos dadas. Se sentindo, se reverenciando, se fortalecendo, revolucionando, enquanto aguardavam a chegada de Amaro Freitas.
Um gesto que pode passar despercebido, mas que carrega uma potência imensurável.
Homens negros num Brasil com tantas feridas profundas raramente têm o direito de falar de amor. De solidão. De sentimentos. Sobre o direito básico de amar. O próprio direito à existência.
E amar entre si, é uma afronta ainda maior.
E foi da força desse amor, desse encontro poderoso entre nomes já gigantes da música, que nasceu uma das obras mais importantes da música contemporânea recente. Um trabalho que concretiza o encontro entre três artistas já consolidados, com premiações e reconhecimento em suas trajetórias, e que decidiram que a canção seria a força que os guiaria até o parto desse trabalho.
Lançado em plataformas de streaming em 15 de janeiro, o disco 'Criolo, Amaro & Dino', o foi o álbum do mês de maio, lançado em vinil pelo clube de discos da Três Selos Rocinante e sela o encontro histórico entre Criolo, o pianista Amaro Freitas e o músico português de raízes cabo-verdianas, Dino Santiago.
Os três já tinham se encontrado em 2024, quando produziram juntos a faixa 'Esperança', indicada ao Grammy Latino.
O disco já nasce gigante por reunir três nomes de tanto peso, a partir de um encontro que nasceu sem pretensões. Tudo começou numa reunião natural em Portugal, e foi tomando forma a partir de uma proposta de Criolo: "e se a gente fizesse algo?".
Esse algo, que inicialmente nem tinha uma direção certa, um caminho definido, foi encontrando forma ao ir se construindo num trabalho que une rap, jazz, a música crioula trazida por Dino Santiago, trazendo fortes referências africanas.
Referências africanas que inevitavelmente atravessam a história dos três.
O disco foi feito no caminho. Um caminho que percorreu Portugal, Rio de Janeiro, chegando ao Recife de Amaro Freitas, que recebeu Criolo em casa, ofereceu café da manhã.
Mas sem cuscuz. Contrariando estereótipos, Amaro Freitas não sabe fazer cuscuz. Mas tinha fruta e o calor da cumplicidade construída entre as paredes de casa e dos estúdios.
O resultado é um disco que circula entre a intimidade das salas de três artistas que abrem espaço para as vozes que já cantavam, mas também para um disco plural que traz a música popular, com a rabeca pernambucana de Maciel Salú e o canto urbano d'As Clarianas.
Entre as minhas preferidas, 'Seka', e 'No vento de Nós': Onde o amor fez raiz, Há um céu que nunca diz adeus.
Como disse Criolo, o disco é "esse roteiro criado a partir da nossa sensibilidade de perceber um ao outro". Sensibilidade que fez nascer um trabalho maduro e com um som que remete ao ancestral ao mesmo tempo que dialoga profundamente com o que se produz na música contemporânea.
É daqueles discos que seu filho vai encontrar no meio da sua coleção no futuro e falar "grande disco do tempo da minha mãe. Esse era dela."
Em tempos de tanta efemeridade, ter um disco em mãos, um disco produzido por três homens negros é concretizar a existência. E não apenas a existência do álbum.
Como disse Criolo durante nossa conversa, é como se o disco materializado desse a três homens negros o direito de existir: Disco é a materialização de um sonho. Como se a gente passasse a existir. Me vêm lembranças da adolescência da felicidade que o disco causa. O rap fez acreditar que era capaz de fazer algo que não comer a rotina.
Um disco que já nasce um clássico. E que inclusive vai fazer parte do acervo do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiros, em Portugal. E certamente também vai ocupar as paredes físicas e da memória do artista plástico Vik Muniz, que criou a arte da capa do álbum.
Essa parceria com Vik surgiu depois de uma conversa com Criolo, num encontro musical na casa de Caetano Veloso. "Um dia vou fazer uma capa de um disco seu, se você quiser", disse Vik a Criolo. E 15 anos depois, aquela conversa que parecia despretensiosa se tornou concreta como a arte de Vik Muniz.
Me recordo aqui de quando, cerca de 15 anos atrás, estive presente numa palestra que dizia que o futuro da música seria o streaming. E de fato foi uma profecia que se concretizou poucos anos depois daquela fala.
Mas o streaming nos causou uma confusão de excessos de possibilidades, de confusão mental quando muitas vezes a única coisa que a gente quer é ouvir algo, sem muitas sugestões e interferências.
Que bom que temos o streaming, mas estar diante de um disco é ter o privilégio de tatear o abstrato da música. É estar diante de um futuro sim, mas futuro que é esse presente de vivenciar a perpetuação de algo.
Gosto de dizer que o ser humano conquistou o sonho de viver a vida eterna através da música. Aconteça o que acontecer, a música nunca morre, uma vez que vai estar viva em alguém que te lembra uma música; em uma vivência que te lembra uma música...
O Brasil com suas dimensões continentais é um país que ouve majoritariamente a própria música, e abre pouco espaço para a sonoridade de outras culturas e línguas.
Criolo, Dino & Amaro é a nossa chance de ampliar os horizontes, atentar os ouvidos, furar essas fronteiras sonoras, e mergulhar nesse encontro transatlântico que ressignifica e fortalece a relação de três homens negros com o mar.



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