Michael Jackson tem fãs que ainda nem nasceram
- Cynthia Martins

- 23 de abr.
- 5 min de leitura

Todos os dias meu filho e eu temos nossos rituais. E muitos deles passam obrigatoriamente pela música. Ele pode ser o que ele quiser, mas a relação com a música está sendo construída desde já. Instrumentos infantis mas com sons de verdade estão espalhados pela casa: violão, xilofone, pandeiro, bateria, tamborim…
Entre os desafios de criar uma criança sem acesso às telas, haja criatividade e presença para desviar a atenção para o que realmente permanece.
E em tempos tão rasos, há algo mais permanente e de tamanha profundidade e que nos convida à presença e conexão do que a música?
Aos dois anos de idade, meu filho sabe que quase todos os dias temos que escolher juntos algum disco pra tocar. E dia desses, o escolhido foi o Thriller, álbum icônico de Michael Jackson de 1982.
Não resisti, quebrei minhas próprias regras de zero telas e deixei soar junto do disco a TV ligada ao Youtube com os videoclipes. Nos pouquíssimos minutos que permiti que meu filho ficasse diante da TV, ele ficou hipnotizado.
Ben - que além de ser nome do meu filho é nome de uma das primeiras músicas de Michael Jackson em carreira solo, do álbum ‘Ben’, de 1972 - não ficou hipnotizado somente por causa luzes que as telas emitem, mas por no fundo saber que seus olhos que descobrem o mundo a cada passinho estavam diante de algo absolutamente grandioso. E certamente eterno.
Impossível dissociar Michael Jackson de seus videoclipes. Difícil pensar a existência de Michael Jackson sem considerar a verdadeira revolução visual que ele causou. Michael é imagem e som.
E um Michael Jackson tão visual tem estado cada vez mais em evidência não só pelo legado que deixou - e que ainda tem tanto a ser explorado. Mas em evidência justamente porque ele também deixou uma herança que persegue a performance através do visual.
E mais: em tempos de danças no Tik Tok, 40 anos atrás Michael inaugurou novas formas do dançar masculino. Um dançar livre e totalmente disruptivo. Será que antes de Michael Jackson homens haviam bailado com tamanha ousadia e performance?
Em 2026, todos somos consumidos diariamente por vídeos. Somos consumidores, produtores e até reféns de tanto conteúdo. E Michael Jackson, quase 17 anos depois de sua morte, também está lá.
Afinal, quem não foi bombardeado nos últimos tempos por vídeos de Michael Jackson gerados por Inteligência Artificial? Michael Jackson em situações absurdas, como roubando um balde de asas de frango das mãos de uma pessoa no KFC. Vídeos até absurdos, mas tão, tão reais que não há como negar: ajudam a aproximar e até apresentar à nova geração a um dos personagens mais revolucionários da história humana.
Este ano Michael faria 68 anos em 29 de agosto. E sua morte completa inacreditáveis 17 anos em 25 de junho. Não são efemérides “redondas” das quais nós jornalistas gostamos tanto para trazer à tona uma reportagem especial, um artigo, uma celebração. Mas veja bem como Michael Jackson consegue sempre superar qualquer expectativa jornalística quando ele próprio é maior que qualquer tempo, qualquer data, qualquer marca.
E 2026 é O ano de um artista tão vivo, que vê sua história perpetuada através da oralidade, do boca a boca, de vídeo em vídeo, de maravilhamento em maravilhamento.
Uma história que também se perpetua através do próprio sangue de MJ. Afinal, o planeta reencontra Michael Jackson mais vivo do que nunca, brilhantemente reencarnado no filme ‘Michael’, que estreia no Brasil neste 23 de abril.
É o próprio sobrinho de Michael, Jaafar Jackson, filho do irmão de Michael, Jermaine Jackson, que tinha apenas 12 anos quando o tio morreu, quem o interpreta com fidelidade e emoção impressionantes, como se Michael nunca tivesse morrido.
Estive na pré-estreia para convidados e presenciei uma catarse coletiva: crianças vestidas com figurinos icônicos de Michael Jackson, gritos, palmas como se todos estivéssemos no cinema diante do próprio Michael. E de fato é um show no imaginário de quem não teve a chance de vê-lo ao vivo.
Claro que há a sensação de que falta muito mais a ser retratado no filme. Mas sempre vai faltar algo diante da impossibilidade humana de condensar em pouco mais de duas horas uma obra e uma vida tão magníficas.
O filme se preocupou mais em honrar a obra do artista do que se envolver em polêmicas e assuntos delicados. Estão lá a relação conturbada com o pai, a dor de ter perdido a infância…Mas não vai tão além. E deixa a sensação de que virá um segundo filme. Até por ser uma história viva que não tem fim.
É a força de um artista que, mesmo em tempos de extrema conectividade e tanta dispersão, consegue fazer com que contemporâneos de Jackson e quem sequer tinha nascido quando ele estourou ou até mesmo na data de sua morte, se unam com o único propósito de celebrar uma obra atemporal.
É de impressionar a rapidez dos tempos em que vivemos, a apressada efemeridade das coisas, que faz com que gerações mais novas desconheçam até nomes como Beatles e Rolling Stones. É um choque geracional potencializado por um tempo de muita impaciência.
Paradoxalmente essa mesma geração, através da tão desafiadora pressa tecnológica, também está redescobrindo nomes como Michael Jackson através das redes e das famosas trends que viralizam com trilhas das mais diversas. Lembram da Fleetwood Mac, que voltou aos holofotes em 2020 depois do vídeo viral do skatista tomando seu suco ao som da música ‘Dreams’? Pois é.
É a música e seu poder transcendental de nos transportar magicamente para um passado que não vivemos e temos saudade.
Nesses tempos queremos nos abraçar à nostalgia. Ao que é palpável. Ao que é de casa. Ao que permanece e é familiar.
Falar de Michael Jackson em 2026 é ter a oportunidade de voltar no tempo. Revisitar a juventude, a infância. É voltar no pôster na parede, correr pra apertar rec e gravar em fita K7 o hit que toca no rádio. É sentir - positiva ou negativamente - que a vida não é mais a mesma. Que não estamos mais ali naquele lugar. Mas é a música de Michael Jackson nos leva de volta.
Uma linguagem universal que faz com que minha mãe, sem falar uma única palavra de inglês, saiba identificar ao primeiro acorde que o que vem das caixas de som é Michael Jackson.
A música e dança é o que temos em comum.
E se nós seres humanos tanto sonhamos com a eternidade, já pararam pra pensar que a música é talvez a única forma que encontramos há séculos de viver pra sempre?
E como diz um dos milhões de comentários no vídeo do clipe de Thriller, “há fãs de Michael Jackson que ainda nem nasceram”.
É assim, de geração a geração que a música não morre. Que Michael não morre. Nunca morreu mesmo. E nunca morrerá.



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